Monday, February 2, 2026

Couve-d'água: Memória Ancestral e Soberania Alimentar

Tem uma planta que muita gente passa direto, nem repara. Às vezes tá ali na beirada do córrego, no barranco úmido, quietinha. Mas essa humilde erva aquática, a couve-d’água, ou golfo (Limnocharis flava) guarda uma história de resistência, um saber que atravessa gerações e um potente convite para repensar nossa relação com a terra e com a comida.

Ela é o que a gente chama de PANC – Planta Alimentícia Não Convencional. E não é “não convencional” por acaso: é porque nosso sistema alimentar esqueceu dela, mas nossos avós e avós dos avós não.

Golfo na selvagem, cresce livre

Foto do golfo na selvagem

Aqui em Pernambuco, onde vivo, o golfo que muitos chamam de 'couve-d'água' ou 'golfo', brota de graça nos canais, nos valos, nas beiradas dos rios urbanos. Ele não é visto, não é celebrado. Só é notado quando os garis chegam para roçar, cortam tudo e jogam fora, como se fosse lixo. Mas ele volta. Sempre volta. A cada chuva, a cada fluxo de água, ele reaparece, verde e resistente.

Essa planta não precisa da gente, mas a gente precisa dela. Enquanto o sistema tenta apagá-la, ela insiste. É um símbolo vivo de resistência alimentar. Cheia de fibras, de nutrientes, de história. Cresce sem pedir licença, sem agrotóxico, sem custo. Só pede um olhar atento. E uma panela quente.

A couve-d’água nasce onde a terra é generosa e úmida. Mas o pulo do gato é que ela não precisa de muito. A gente pega um balde velho, uma bacia furada, um vaso que ia pro lixo, enche de terra, coloca água, e ela cresce. Firme e verde.

Isso não é só jardinagem. É cultivo circular. É dizer: “não preciso comprar, não preciso desperdiçar, não preciso depender do caminhão que vem de longe”. É soberania alimentar nascendo no quintal de casa, na varanda do apartamento, no terreno baldio que vira horta comunitária.

Golfo ou couve-d’água
Foto de golfo. 
Do descarte ao alimento: cultivo circular da couve-d’água em balde reaproveitado.

Na cozinha, a couve-d’água é puro aproveitamento. Folhas jovens, talos dão crocância e botões florais engrossam caldos. Nada desperdício. É uma culinária que não joga nada fora, porque nossa relação com a comida também é um ato político. Enquanto o agronegócio gera toneladas de desperdício, a gente reaprende com as mestras e os mestres: tudo na planta serve. Tudo alimenta.

Saber tradicional: cada parte da planta tem seu lugar.

Por que isso é Justiça Climática?

Porque justiça climática não se faz só no protesto. Se faz no prato.
Quando a gente escolhe uma planta que:

Cresce sem veneno

Nasce de graça nos brejos

Pode ser cultivada em qualquer canto

… a gente está praticando Bem Viver. Está protegendo territórios, fortalecendo espécies adaptadas, diminuindo a pressão sobre a terra e dizendo não a um sistema que envenena, desmata e exclui.

A couve-d’água é mais que uma planta. É um convite. Um convite para olhar com outros olhos o que cresce no nosso caminho. Para dar novo uso ao que seria lixo. Para lembrar que a comida carrega história, luta e futuro.

Vamos juntos nessa roda?


Note: 
Todo esse percurso está registrado. Das fotos do cultivo nos recipientes reaproveitados aos vídeos da colheita e do preparo.
Confira aqui o material completo: https://acesse.one/CWJ4Z